seguindo de volta *-*

Ia deitar-se quando a campainha tocou. Uma, duas, três vezes. Quem poderia ser àquela hora imprópria. com aquele tempo demoníaco? Noé com a sua arca? Oh, uma má notícia sobre a vizinha Rosa? Que desespero! No caso de uma emergência, por certo telefonariam, muito simples. Jamais enviariam alguém só para avisar sobre o ocorrido - não seria nem lógico nem prático.
Enfiei os chinelos e arrastei-me para a porta, já com a azia a revolver-se no estômago, por causa do susto. Acendi a luz da sala, acordando o minúsculo peixe do aquário, o qual deu uma cambalhota com a graciosidade de um ginasta chinês e bateu com a cauda dourada à superfície da água, esguichando um repuxãozinho de conta-gotas. Endireitei-me e alisei um canto do tapete, que estava sempre a enrolar-se e no qual tropecei-me muitas vezes. Aproximei da entrada e perguntei-me a mim mesmo: não seria melhor fingir que não estava ninguém em casa e voltar para a cama? Não custava nada… A campainha guinchou de novo.
- Quem é? - sussurrei
Respondeu-me uma voz educada de homem, que na escuridão erma da noite ressoou como um sino.
- Perdoe-me por incomodar, mas tive um acidente com o carro. Será que posso usar o telefone? O meu celular está descarregado. Não me demoro nada. É urgente, e não lhe tomo mais do que um instante.
Aquelas simples palavras pesarão demasiado da conta. Afastei-me da porta e, correndo discretamente a cortina, espreitei pela janela. Lá fora não parecia nem noite nem dia, apenas um labirinto escuro, sombras dentro de sombras. O vento bramia e fustigava a casa em grandes rajadas, feito disparos de armas de fogo. Vislumbrou à entrada um vulto em pé, indistinguível na sua silhueta escura e inconsútil, como se usasse uma daquelas roupas de borracha negra dos homens-rã. Censurando-se pela imprudência, voltei para a porta e abri cautelosamente. Apercebendo-se do ar gélido que vinha da rua, apertei ao pescoço a gola do pijama de flanela.- Entre, entre.
- Deus lhe pague. Já não sabia o que fazer, sem carro e sem telefone. Com licença. Os celulares abandonam-nos sempre nas piores alturas.
- É verdade. Disse-me que sofreu um acidente?
- Pois é. Uma fatalidade. Nem acredito que isto me esteja acontecendo. Há dias em que uma pessoa não pode sair de casa.
- Está ferido? Não quer se sentar? Ou um copo de água?
- É muita bondade sua. Acho que, se não se importa, vou-me sentar um minuto antes de fazer a chamada. Acredita que ainda estou com as pernas bambas? Se me feri? Para ser franco, não me sinto nada bem. Creio que nunca me senti tão mal em toda a minha vida.
Examinei o recém-chegado com mais vagar. Não obstante a chuva, permanecia seco. Apesar disso, parecia precisar de um bom banho. Não cheirava nada bem, e as suas roupas estavam manchadas, umas nódoas escuras que lembravam compota de morango. Desviei o olhar, para não constranger o visitante.
- A sério? Talvez fosse melhor chamarmos uma ambulância… Perder tempo nestas coisas pode ser perigoso. Quer que avise alguém enquanto recupera o fôlego?
- Não, não vale a pena. Já não tenho ninguém.
- Não?
- Ninguém com quem possa falar.
Eu estava incomodado com aquela situação. Contorci-me, devido ao calafrio que lhe percorreu as costas. Havia algo de estranho naquilo tudo. Senti minhas mãos úmidas, a garganta apertada. Gaguejei por um momento.
- Perdoe-me a curiosidade, mas como foi o seu acidente? O seu carro bateu em outro carro?
- Que nada. O outro carro é que bateu em mim. - o homem falava em arranques distorcidos.
Respirei fundo, como se estivesse a vir à tona. Experimentei raiva antes do medo. Embranqueci feito um fantasma, levantei a sobrancelhas quase até a raiz dos cabelos. Lá fora, uma trovoada ressoou e fez funcionar o alarme de um automóvel estacionado.
- Atropelado? - balbuciei. Meus dentes começaram-se a bater uns nos outros. Não mexia uma pálpebra. Ao mesmo tempo, a vista ardia-me: era como se tivesse areia nos olhos. Será que o intruso conseguia farejar o cheiro do meu pânico?
- Exato. Passaram por cima do meu corpo. Sem mais nem menos. Como se eu fosse um tapete.
Sentiu-me gelar pela espinha abaixo, como se alguém lhe tivesse enfiado granizo pelo meu colarinho. E um breve silêncio tenso se estendeu por questão de minutos.
- E a pessoa que o atropelou?
A voz do intruso, de educado, embargou-se, subiu de timbre e se tornou desagradável e hostil. Os músculos faciais endureceram, formando como que uma máscara.
- Ah, este… Fugiu, o velhaco. Se o apanho, faço com ele o que ele fez comigo.
Mordi o lábio com tanta força que este se rasgou - o sangue na língua era espesso, doce e tépido. Uma pegajosa película de pavor se colou à minha pele. Com os cotovelos encostados à cintura e os pulsos hirtos, exalei um gemido débil.
- E por acaso viu-lhe a cara? - Neste momento, me descontrolei, e aspirei o odor enjoativo e pungente da minha própria urina.
- Não, não fui capaz. Quem me dera. Estive quase o tempo todo deitado de bruços. Mas, no último momento, consegui vislumbrar o carro dele. E nunca me vou esquecer do que vi.
- Não? E por que não?
O homem piscou os olhos vítreos e arreganhou um sorriso maligno.
- Porque era um Mercedes cor de maçã-reineta. Foi, nem mais nem menos, o carro que me matou.
O telefone tocou e arregalei os olhos. Graças a Deus, não passava de mais um simples pesadelo. Continuei são e salvo. Fora apenas um pesadelo monstruoso. Gradualmente, o quarto tomou forma à minha volta, e volumes cinzentos destacaram-se da escuridão: a cômoda, o roupeiro, uma cadeira, a janela. Estremeci de novo, me encostei contra a cabeceira da cama e acendi a luz da mesinha do lado. Pela primeira vez, comprovei na prática algo que já sabia na teoria: que um susto tremendo era realmente capaz de pôr em pé o cabelo de uma pessoa. Cada cabelo do corpo está ligado ao meu próprio musculosinho e respectiva fibra nervosa, e um estímulo poderoso dispara uma reação simultânea. Passando a palma da mão pelas penugens da nuca, senti as eriçadas. Quase como se tivesse acabado de ser eletrocutado. Picaram-me como minúsculas agulhas. E a outra possibilidade? A curiosidade excedia tudo, mesmo o medo: já agora, tinha de verificar se era apenas um sonho, ou era apenas a realidade vindo a tona sobre mim, outra vez. Bendito dia em que fui cometer a maior burrada da minha vida com aquele Mercedes. Gustavo. |ROCKANDSODA

